Profissional “Jano”: Dilema de duas faces nas Relações Institucionais e Governamentais, por Josbertini Clementino
Na mitologia romana, Jano é o Deus das transições, dos limiares e das passagens. Representado com duas faces, olha simultaneamente para o passado e para o futuro, para dentro e para fora. Poucas imagens simbolizam tão bem a realidade do profissional de Relações Institucionais e Governamentais (RIG).
Assim como Jano, o profissional de RIG vive permanentemente entre dois mundos que operam em lógicas opostas: de um lado, a empresa, pressionada por resultados, prazos, metas e retorno sobre investimento; do outro, o governo, regido por ritos, tempos longos, procedimentos formais, controles e múltiplos centros de decisão.
Esse não é apenas um desafio técnico. É um dilema existencial deste campo profissional.
Duas racionalidades em colisão permanente
O setor privado trabalha sob a lógica da urgência. O relógio é trimestral, o KPI é imediato, a pergunta é sempre: “Quando isso gera resultado?”
O setor público, por sua vez, opera sob a lógica da legalidade, da previsibilidade institucional e da cautela. Processos levam tempo. Decisões passam por filtros políticos, jurídicos e administrativos. Muitas vezes, não avançam.
O profissional de RIG está no meio desse atrito constante. Ele entende profundamente os dois mundos, mas não controla integralmente nenhum deles.
A disrupção invisível: o desgaste de ser o eterno mediador
Aqui surge a grande disrupção, pouco debatida e raramente reconhecida: o desgaste mental e emocional de ser cobrado por resultados que dependem majoritariamente de atores externos.
O profissional de RIG:
É cobrado internamente por decisões que não assina;
Responde por agendas que não controla;
Assume riscos reputacionais por processos que não conduz;
Traduz expectativas privadas para um ambiente público que não funciona por demanda.
Diferentemente de áreas como vendas, marketing ou operações, o RIG não “fecha contratos” sozinho. Seu trabalho é relacional, incremental, cumulativo e, muitas vezes, silencioso.
O paradoxo central do RIG
Aqui está o ponto-chave:
RIG é uma atividade onde o seu sucesso depende, em grande medida, de pessoas que não trabalham para você.
Deputados, senadores, reguladores, técnicos de carreira, assessores, ministros, prefeitos, secretários. Nenhum deles responde hierarquicamente ao profissional de RIG. Ainda assim, deles depende o avanço (ou o bloqueio) da agenda.
Isso gera uma sensação recorrente de impotência funcional:
Você influencia, mas não decide;
Articula, mas não executa;
Constrói pontes, mas não controla quem atravessa.
Como lidar com essa “impotência” sem adoecer
O amadurecimento profissional em RIG passa por aceitar e estruturar essa realidade.
Alguns aprendizados fundamentais que tive ao longo da minha trajetória:
Trocar controle por influência: RIG não é sobre comando, é sobre construção de ambiente favorável.
Educar a empresa sobre tempo institucional: Quanto mais o C-level entende o funcionamento do Estado, menor a pressão irrealista.
Medir sucesso além do “sim” ou “não”: Avanços de agenda, redução de risco, antecipação regulatória e reputação também são resultado.
Separar identidade pessoal do resultado político: Nem todo “não” é fracasso. Muitas vezes, é preservação estratégica.
Reconhecer que RIG é trabalho de médio e longo prazo: Quem busca gratificação imediata dificilmente sustenta a carreira.
RIG como guardião dos limiares
Assim como Jano, o profissional de RIG não pertence totalmente a nenhum dos lados. Atua no limiar, na fronteira entre interesses, narrativas e tempos distintos.
Esse lugar é desconfortável, mas é exatamente aí que está o valor estratégico deste campo de atuação profissional.
RIG maduro entende que seu papel não é acelerar o Estado artificialmente, nem desacelerar a empresa por conveniência política. Seu papel é traduzir mundos, alinhar expectativas e reduzir riscos em um ambiente estruturalmente complexo.
No fim, a pergunta não é se o profissional de RIG consegue controlar o processo. A pergunta é:
Ele consegue sustentar o equilíbrio entre as duas faces sem perder a própria?
Por Josbertini Clementino
Especialista em Relações Institucionais e Governamentais l Políticas Públicas l Gestão de Projetos e Stakeholders l Conselheiro de Administração IBGC l Regulatório l Advocacy l RIG l RelGov