Conhecimento, governança e IA pautam artigos de membros da CBPCE
A CBPCE reforça sua atuação como espaço de reflexão, conhecimento e contribuição institucional com a publicação de artigos assinados por diretores e sócios no jornal O POVO.
As produções abordam temas relevantes para o cenário atual, conectando gestão, economia, inovação, governança, conhecimento especializado e os impactos da tecnologia na sociedade.
Os artigos são assinados por Clivânia Teixeira, diretora executiva da CBPCE, que analisa a importância de valorizar o conhecimento qualificado; José Benedito de Aguiar Simões, diretor de Novos Negócios, que traz uma reflexão sobre planejamento e governança a partir da eliminação do Brasil na Copa do Mundo; e Fabíola de Araújo Rocha, advogada, professora universitária e associada da Câmara, que discute a centralidade da pessoa humana diante dos avanços da inteligência artificial. As publicações evidenciam a diversidade de olhares presentes na CBPCE e sua contribuição para debates estratégicos da sociedade contemporânea, leia na integra os artigos.
A economia invisível do conhecimento, por Clivânia Teixeira
Vivemos uma época em que a informação circula com velocidade inédita. Nunca foi tão fácil acessar conteúdos, opiniões, diagnósticos e orientações sobre praticamente qualquer assunto. Paradoxalmente, nunca foi tão difícil perceber o valor do conhecimento verdadeiramente qualificado.
Talvez isso ocorra porque grande parte dos serviços profissionais pertence ao universo do intangível. Não podem ser tocados, armazenados ou exibidos em uma vitrine. São construídos ao longo de anos de estudo, experiências, erros, acertos, observação e atualização permanente.
Por trás de uma orientação aparentemente simples, muitas vezes existem décadas de formação, repertório acumulado, capacidade analítica e visão estratégica. Existe também algo ainda mais raro: a capacidade de compreender contextos, interpretar cenários e identificar o caminho mais adequado para cada situação.
A informação, isoladamente, possui valor. Mas a capacidade de transformá-la em decisão, estratégia e resultado possui um valor muito maior.
Em diferentes áreas de atuação, o mercado vem sendo desafiado a refletir sobre como reconhecer e valorizar adequadamente o conhecimento especializado. Afinal, aquilo que parece simples na entrega costuma ser resultado de um longo percurso de aprendizagem, observação e experiência.
Compartilhar conhecimento continuará sendo uma das mais nobres formas de contribuição. Mas também é importante reconhecer que tempo, experiência, capacidade de análise e visão estratégica constituem ativos valiosos para profissionais, organizações e para a sociedade como um todo.
Quando deixamos de atribuir valor ao saber especializado, corremos o risco de banalizar justamente aquilo que sustenta a inovação, o desenvolvimento e a tomada de decisões de qualidade.
Em uma economia cada vez mais baseada em conhecimento, como distinguir informação, experiência e inteligência aplicada?
Estamos preparados para valorizar cada uma delas?
Gostaria de conhecer a sua opinião.
Clivânia Teixeira
clivaniateixeira@gmail.com
Diretora Executiva da Câmara Brasil Portugal no Ceará
Quatro anos perdidos em 30 dias, por José Benedito de Aguiar Simões
A eliminação do Brasil nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026 traz uma reflexão sobre planejamento, organização e governança, válida também para as empresas.
Uma Copa dura cerca de 30 dias, mas deveria ser preparada ao longo de quatro anos. Quando esse período é marcado por mudanças constantes, decisões tardias, falta de continuidade e ausência de objetivos claros, o fracasso pode surgir de forma rápida. Em poucas semanas, aparecem problemas ignorados durante todo o ciclo.
Nas empresas, acontece algo semelhante. Muitas organizações possuem profissionais competentes, bons produtos, tradição e capacidade financeira. Entretanto, esses elementos, isoladamente, não garantem resultados. Sem planejamento estratégico, processos definidos, acompanhamento de metas e uma estrutura de governança capaz de orientar decisões, até empresas aparentemente sólidas podem perder oportunidades, clientes e espaço no mercado.
O Brasil continua formando grandes jogadores, mas talento individual não substitui organização. Da mesma forma, uma empresa não alcança seus objetivos apenas porque reúne pessoas competentes. Todos precisam conhecer a estratégia, suas responsabilidades e a direção a seguir.
Sem planejamento, as decisões passam a ser tomadas pela urgência. Trocam-se lideranças, alteram-se métodos e buscam-se soluções imediatas para problemas construídos ao longo do tempo. A organização deixa de conduzir o futuro e passa apenas a reagir aos acontecimentos.
A falta de governança também estimula a busca por culpados. Porém, substituir uma pessoa raramente corrige falhas estruturais. É necessário revisar processos, controles, critérios de decisão e a capacidade de executar a estratégia.
A eliminação brasileira mostrou como quatro anos de expectativas podem ser arruinados em 30 dias. Nas empresas, um contrato perdido, uma crise financeira ou uma decisão equivocada pode revelar, em pouco tempo, anos de desorganização.
Planejar não elimina riscos, mas prepara instituições para enfrentá-los. No futebol e nas empresas, tradição e talento ajudam, mas não vencem sozinhos. Resultados duradouros exigem método, continuidade, liderança e governança.
José Benedito Aguiar Simões
jbasimoes@gmail.com
Diretor de Novos Negócios da Câmara Brasil Portugal Ceará
Salvaguarda da pessoa humana na era da IA, por Fabíola Rocha
Nasceu na zona sul de Chicago e foi criado em Dolton, Illinois, com uma ascendência multicultural: italiana e francesa por parte de pai, além de raízes africanas e espanholas por parte de mãe. Seu pai era um educador e veterano da Segunda Guerra Mundial.
Graduou-se em matemática pela Villanova University, na Pensilvânia, e se destaca por um hobbie curioso na juventude: um entusiasta de Wordle, o famoso jogo virtual de adivinhar palavras do The New York Times, o qual costumava jogar por telefone com o irmão.
Um professor que dedicou grande parte de sua vida ao Peru nas periferias de extrema pobreza. Este é Robert Francis Prevost, Papa Leão XIV, que em seu primeiro documento à sociedade, Magnifica Humanitas, aborda a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial onde convida à reflexão sobre os caminhos que a humanidade pode escolher diante das novas tecnologias.
A tecnologia não é uma força antagônica em relação à pessoa, nem um mal em si mesma. Pode aliviar sofrimentos e abrir novas possibilidades, mas não deve negar à pessoa humana a capacidade de relação e de amor. Razão pela qual defende a criação de regulamentações globais para limitar seu avanço descontrolado.
O Papa Leão alerta acerca da primazia de colocar a pessoa humana na centralidade das decisões tecnológicas e políticas evitando riscos de desumanização, descarte dos idosos, desemprego em massa e aprofundamento das desigualdades sociais.
Afirma que o domínio tecnológico concentrado nas mãos de poucas corporações transnacionais dificulta o controle democrático e favorece manipulações sociais, exclusões e novas formas de dependência econômica. Mesmo na era da IA, todos possam testemunhar a beleza de uma magnífica humanidade habitada por Deus.
A civilização do amor não surgirá de um gesto único, mas da soma de pequenos atos de fidelidade contra a desumanização. Por esta razão, vale a pena parar para refletir sobre aspectos de como nós, cada um à sua maneira, podemos cooperar na construção da civilização do amor. O Papa professor e amante de palavras cruzadas faz um chamado para que a humanidade escolha o caminho da reconstrução coletiva, do diálogo e da comunhão, em vez da lógica da exclusão.
Fabíola de Araújo Rocha
fabiolash@gmail.com
Advogada, professora universitária e associada a Câmara Brasil-Portugal Ceará (CBPCE)
