Enid Câmara, sócia CBPCE e presidente da Abeoc, destaca o papel das empresas na transformação social
Em entrevista ao O Otimista, Enid Câmara fala sobre o passado, presente e futuro do setor de eventos no Brasil. Traça metas, expõe gargalos e propões caminhos a seguir
A empresária e palestrante Enid Câmara é uma otimista de carteirinha. À frente de alguns dos principais eventos corporativos do Brasil, como a Expolog – maior feira de logística das regiões Norte e Nordeste do País -, que neste ano foi realizada nos dias 26 e 27 de novembro, ela aprendeu cedo que pensamento positivo, preparo e boas conversas abrem portas e edificam pontes. “Acho que não dá para fazer eventos sem você aprender a se comunicar”, reflete.
Presidente da Associação Brasileira de Empresas de Eventos (Abeoc), Enid também revela preocupações com as complexas questões sociais do Brasil e acredita que o empresariado também precisa contribuir com a diminuição das desigualdades. “A nossa geração tem essa responsabilidade de ajudar. Não devemos apenas esperar pelo poder público. Precisamos ajudar essa juventude, que é o futuro das nossas empresas, é o futuro da economia”, explica.
Em entrevista ao O Otimista, em meio à realização da Expolog, Enid falou sobre o sucesso da feira, além de sua atuação na Abeoc, projetos futuros e soluções para o setor de eventos, que ainda busca se recuperar do impacto causado pela pandemia de covid-19.
O Otimista: Que balanço a senhora faz da edição 2025 da Expolog?
Enid Câmara: A Expolog está na 20ª edição. São 20 anos, duas décadas, de um evento fomentando, discutindo os principais desafios da logística brasileira. Então, grandes temas, grandes políticas públicas que foram construídas ao longo desses 20 anos passaram pelos palcos da Expolog. Isso é muito importante! Grandes especialistas da logística brasileira, da economia, da infraestrutura, passaram pela Expolog ao longo desse período. A Transnordestina, por exemplo, já esteve em várias discussões nossas ao longo desses 20 anos. É um exemplo de uma grande política pública, de uma grande obra que foi discutida aqui. Então, a gente fica muito feliz porque é um evento que vem deixando um legado, tanto na parte técnica, na parte de políticas públicas, na parte de capacitação, principalmente, que é o que mais interessa para o empresário, que é na geração de negócios.
“A cada ano a gente vem buscando novos desafios, mas também mantendo a visão de que o Ceará e o Norte-Nordeste brasileiro precisam ser melhor vistos lá fora”
O Otimista: O evento evoluiu bastante ao longo de duas décadas…
Enid Câmara: Então, milhares de negócios foram realizados ao longo dessas duas décadas da Expolog e, a cada ano, a gente vem aprimorando essa pegada do negócio, das rodadas de negócios cada vez mais profissionais. Estamos aqui com uma grande rodada liderada pela SDE (Secretaria de Desenvolvimento Econômico), para a gente cada vez mais fomentar a geração de negócios. Estamos com a Missão Empresarial do Panamá, com vários empresários na área da logística, do agronegócio, comércio, indústria, também para fazer essa conexão do Brasil com a América Latina, Caribe, através do canal do Panamá e de todos os modais de logística que existem no Panamá. Estamos com a Missão de Portugal, liderada pela Câmara Brasil-Portugal. Então, a cada ano, o evento vem se aprimorando os seus processos de organização e de construção.
O Otimista: Quais os maiores desafios superados para a Expolog ser reconhecida internacionalmente?
Enid Câmara: É um evento que começou dentro de uma sala, em um hotel. Então vem evoluindo paulatinamente e agregando novos atores. Então, o que é mais importante é que o evento começou com a visão portuária e hoje ele é um evento multimodal, discutindo portos, aeroportos, transporte, ferrovias. Então, a gente tem um braço forte de transporte com a parceria com o Setcarce (Sindicato das Empresas de Transporte de Cargas e Logística no Estado do Ceará), temos um braço da internacionalização com a parceria de uma empresa do Panamá e de Portugal. A cada ano, a gente vem buscando novos desafios, mas também mantendo a visão de que o Ceará e o Norte-Nordeste brasileiro precisam ser mais bem vistos lá fora. Quando nós vamos para o Panamá, existe a visão de que o Brasil é Rio de Janeiro e São Paulo. Nós temos feito essa defesa para que o Norte-Nordeste brasileiro também seja visto internacionalmente como um polo de geração de negócios.
O Otimista: O setor de eventos, que sofreu bastante na pandemia de covid-19, já está recuperado do baque sofrido de 2020 a 2022?
Enid Câmara: O setor de eventos é novo, começou no Brasil na década de 1960, com as primeiras grandes feiras. E aí, de repente, ele vem abaixo com a covid. Na pandemia, ficamos praticamente quatro anos sem operar. Quase todas as empresas do setor, 99% – esse dado vem de pesquisa realizada pelo Sebrae – foram fechadas. 100% da sua mão de obra, demitida. Mas é importante olharmos do ponto de vista de recuperação das empresas, porque o setor voltou pujante. Nós temos muito mais eventos acontecendo do que antes da pandemia. Então, nós já voltamos até passando do patamar de 2019, no pré-pandemia.
O Otimista: Mas, economicamente, ainda existem desafios?
Enid Câmara: Quanto à recuperação das empresas do setor, principalmente as organizadoras de eventos, elas não estão recuperadas. Por quê? Nós tivemos um aumento enorme na nossa planilha. Os fornecedores estão hoje com um preço três, quatro, cinco vezes maior. Determinados itens com aumento de mil por cento na minha planilha, por exemplo. E como é que eu me recuperei? Se eu não consigo botar essa margem para o cliente pagar, entende? Então, há aí um gap. As empresas de eventos, em especial, estão sofrendo muito ainda para recuperar, pagar dívidas. Elas estão endividadas por empréstimo feitos na pandemia. Por outro lado, 95% das empresas que fazem eventos são pequenas, fundamentais para manter as atividades de pé.
O Otimista: O que os governos podem fazer do ponto de vista de incentivo, para que essa cadeia realmente se recupere?
Enid Câmara: Nós entendemos que os orçamentos estão cada vez menores dentro dos governos, em geral. A gente também passa por uma crise econômica do ponto de vista do orçamento da União. Então, nós entendemos as dificuldades. Mas, quando eu falo de apoio governamental, eu falo também do Congresso, das leis. A reforma tributária vem aí, é uma incógnita para a gente. Eu acho que os governos estão sempre apoiando os setores na forma que eles podem. O empresário também tem que fazer a sua parte.
O Otimista: O Programa Emergencial de Retomada do Setor de Eventos (Perse) entra nessa equação?
Enid Câmara: A questão é muito mais ampla. O Perse acabou porque acharam que as empresas estavam recuperadas da pandemia, mas elas não estão. O Perse precisava ter continuado, já que, primeira vez na vida, o setor teve uma política de apoio na recuperação. As entidades e representantes do setor continuam trabalhando para buscar uma substituição para o Perse. Por quê? Porque quem está mesmo na liderança sabe que as empresas não estão recuperadas.
O Otimista: A senhora acha que, no Ceará, esse cenário está pior ou melhor em relação ao resto do Brasil?
Enid Câmara: Eu acredito que o Nordeste brasileiro tem um diferencial no povo, que é muito guerreiro, no empreendedorismo. Nisso, a Região se destaca muito. No geral, acredito que nós estamos bem, mas precisamos cada vez mais buscar novas alianças estratégicas para melhorar. Novos fomentos, talvez parceria com bancos, ou seja, a gente precisa encontrar uma forma de sermos ainda mais visto. Devemos subir a régua em relação à visibilidade e à importância estratégica desse setor.
O Otimista: Que visão a senhora tem do cenário econômico no Brasil para os próximos anos?
Enid Câmara: O Brasil tem um potencial enorme de crescimento na relação com a América Latina. E, às vezes, eu acho que a política pública brasileira está muito voltada para a Europa, para os Estados Unidos, e esquece um pouco os seus vizinhos. Eu tenho viajado muito pela América Latina, e vejo que as pessoas são apaixonadas pelo Brasil. E aí eu não vejo campanhas, eu não vejo uma promoção do Brasil na América Latina como a gente vê em outros países.
O Otimista: Qual seria um bom primeiro passo nessa direção?
Enid Câmara: No próximo ano, por exemplo, a Cocal (Confederação de Entidades Organizadoras de Congressos e Afins da América Latina), uma confederação que eu sou aliada juntamente com a Abeoc, será realizada aqui em Fortaleza no próximo ano. Queremos atrair mais latino-americanos para cá. E mostrar que o Brasil tem muita coisa, tanto na área do setor corporativo, como na área do lazer.
O Otimista: Quanto ao Ceará, como a senhora enxerga as políticas públicas na área do turismo?
Enid Câmara: A Secretaria de Turismo vem fazendo um trabalho hercúleo com o secretário Eduardo Bismarck para aumentar essa quantidade de voos. O Ceará tem melhorado muito a sua malha aérea depois da pandemia. Então, eu acho que o setor aéreo está bem representado no Estado. O Arialdo Pinho (ex-secretário do Turismo) construiu todo aquele hub, que foi fortemente afetado com a pandemia. A gente pode dizer que em dois anos dá para recuperar um trabalho que o Arialdo vinha fazendo em uma década? Não dá! A mesma coisa ocorre no setor de eventos. Como é que eu vou me recuperar em dois, três anos? É preciso ter esse comparativo. Mas sou uma pessoa otimista, principalmente em relação ao Norte e Nordeste brasileiro, onde está inserido o Ceará.
“Eu tenho viajado muito pela América Latina, e vejo que as pessoas são apaixonadas pelo Brasil”
O Otimista: Que balanço a senhora faz de sua gestão à frente da Abeoc até agora? Que legado pretende deixar?
Enid Câmara: Eu estou entrando para o meu terceiro ano em janeiro. Na Abeoc Brasil, após ter passado pela Abeoc Ceará, os mandatos são de três anos. Nesses dois primeiros anos, a gente conseguiu ampliar a representatividade da entidade nos Estados. A Abeoc sofreu muito o impacto da pandemia. Os associados saíram, não estavam mais pagando. Hoje, estamos presentes em 20 estados brasileiros e no Distrito Federal. A nossa estratégia é terminar o ano fechando o mapa do Brasil. Ter representatividade novamente em todas as regiões, o que não é fácil. O Brasil é muito grande. Mas já avançamos muito. Um outro ponto que nós avançamos e que foi uma grande conquista é o dimensionamento econômico do setor, que é um grande raio-x da indústria de eventos.
O Otimista: Há quanto tempo esse raio-x não era feito?
Enid Câmara – Havia já 13 anos que não era refeita essa pesquisa, mas conseguimos com o apoio do Sebrae. Estamos terminando esse dimensionamento econômico que começou o ano passado. Nós já realizamos mais de mil entrevistas no Brasil todo. Quem ganhou a licitação desse trabalho foi o Observatório da Indústria, da Fiec (Federação das Indústrias do Estado do Ceará). A gente se sente mais confortável porque estamos perto. Sabemos que é um trabalho muito bem feito.
O Otimista: Imagino que a comunicação seja um braço essencial nesse processo…
Enid Câmara: Criamos uma revista que foi um marco. O setor de eventos não tinha um veículo. Segundo o Nizan Guanaes, a revista impressa está voltando com tudo. Fiquei feliz que o Nizan deu essa entrevista há poucos meses falando sobre a importância do impresso, que volta com tudo. A gente criou a revista O Evento. E já fizemos cinco edições depois que eu entrei. E tem sido uma revista muito bem aceita no Brasil.
O Otimista: Quanto ao seu comando na Prática Eventos, o que a senhora gostaria de destacar?
Enid Câmara: Depois da pandemia, nós reformulamos nossa estratégia e resolvemos focar apenas em fazer dois eventos por ano, Expolog e Seminário de Gestores Públicos, e tentar sobreviver deles. O nosso desafio é sempre melhorar essas feiras, transformando-as em projetos, com entregas melhores para o mercado. Isso não quer dizer que a gente não faça outras coisas. Para quem faz feiras, especialmente no Nordeste, não é fácil. É um grande desafio fazer um evento de grande porte. Eu pretendo ter saúde física e mental para, cada vez mais, fortalecer esses dois eventos que são referência hoje no Brasil.
O Otimista: Seu encontro com o setor de eventos foi bem peculiar, não é? Como a senhora percebeu que tinha vocação para atuar na área?
Enid Câmara: Há 32 anos, eu era funcionária da Pague Menos. Trabalhava com Deusmar Queirós. Foi aí que recebi um convite para estagiar na Prática Empresarial, do então empresário Roberto Matoso, para fazer um estágio na área de eventos. A Prática era uma empresas de consultoria, treinamento e eventos. E eu aceitei. Fui indicada pelo nosso querido amigo Marcos André Borges, que era também amigo do saudoso Roberto. Fui para essa vaga de estágio e lá fiquei. Na época eu fazia sociologia, na Unifor (Universidade de Fortaleza). E eu comecei a fazer conexão das ciências sociais com os eventos. E vi que eventos eram uma atividade econômica que me ensinava muito. Cada dia eu aprendia uma coisa diferente. Fui me apaixonando.
O Otimista: O Roberto Matoso foi seu mentor?
Enid Câmara: Com certeza. O Roberto era um cara muito empreendedor e conseguiu despertar em mim uma visão que eu achava que eu não tinha. Era uma visão mais alargada, de atuar em várias áreas. Passei por todas as áreas da Prática. Passei dez anos estudando, fazendo cursos, pós-graduações, MBAs. Tudo que o Roberto trazia de inovação, eu fazia. Trabalhava aos fins de semana, estudava, fazia palestra…
O Otimista: Quando a senhora decidiu que era o momento de tentar voo solo?
Enid Câmara: Quando o Roberto saiu para o governo, eu comprei a empresa, porque a gente já tinha montado a Prática Eventos. Eu comprei a minha parte e continuei. Mas eu acho que a sociologia me ajudou. Hoje eu enxergo muito mais. Tenho mais clareza de que a sociologia me ajudou também a fazer essa relação de eventos com as questões sociais, com os problemas sociais, com as respostas que você pode dar para a sociedade através dos eventos.
O Otimista: O sonho da sua juventude era fazer jornalismo?
Enid Câmara: Na minha adolescência, na minha juventude, um pouco mais para frente, até fazer a faculdade, eu era muito fã da Fátima Bernardes. A Fátima estava no auge, cobrindo a Copa do Mundo. E eu era apaixonada pelo trabalho dela, me inspirava nela. Eu queria ser jornalista como a Fátima Bernardes. E aí, quando eu fiz vestibular para jornalismo, não passei. Mas eu passei para sociologia. E eu me identifiquei muito. Acho que não dá para fazer eventos sem você aprender a se comunicar. Hoje eu me realizo dentro do setor de eventos porque estou sempre em contato com vocês, da imprensa. Estou sempre conversando.
O Otimista: A senhora acredita que as empresas do setor de eventos têm um papel na proteção da nossa juventude?
Enid Câmara: A grande preocupação das empresas, do mercado, deve ser contribuir para fortalecer as políticas públicas para a juventude e ter nossas próprias iniciativas de responsabilidade social. Nós, como sociedade, podemos cada vez mais, através das nossas atividades, fazer algo pela juventude. Às vezes é algo pequeno. Por exemplo, nós temos um instituto, e por meio dele doamos computadores para uma escola pública que estava precisando. A mensagem final é o que nós podemos incluir nas nossas políticas empresariais esses apoios aos jovens. Eles estão precisando decidir para aonde vão, qual faculdade vão fazer. A nossa geração tem essa responsabilidade de ajudar. Não devemos apenas esperar pelo poder público. Precisamos ajudar essa juventude, que é o futuro das nossas empresas, é o futuro da economia.
Fonte: O Otimista em 15.12.2025