Páginas Vermelhas, com Patrícia Campos: “Internacionalizar exige disposição para se adaptar”
Presidente da Câmara Brasil-Portugal do Ceará, Patrícia Campos avalia que 2026 será decisivo para o ambiente empresarial brasileiro. Entre juros elevados, incertezas fiscais e reforma tributária, ela aponta a previsibilidade da Selic como fator-chave para investimentos e analisa os desafios e oportunidades da internacionalização das empresas cearenses
Presidente da Câmara Brasil-Portugal do Ceará, Patrícia Campos avalia que 2026 será um ano decisivo para a maturidade do ambiente empresarial brasileiro. Em um cenário marcado por juros ainda elevados, incertezas fiscais e a transição da reforma tributária, ela destaca que a trajetória da Selic continuará sendo determinante para o ritmo dos negócios, mas de forma desigual. Para a executiva, mais do que o nível exato da taxa, o fator-chave será a previsibilidade, capaz de estimular investimentos produtivos e atrair capital. Ela também fala do processo de internacionalização das empresas cearenses, seus desafios e oportunidades na Europa.
Confira abaixo a entrevista na íntegra para O Otimista.
O Otimista – Sua trajetória ganhou força no cenário internacional, atuando na área jurídica, especialmente na relação Brasil–Portugal. Como esse caminho foi sendo construído ao longo dos anos e quais experiências marcaram sua atuação até chegar à presidência da entidade?
Patrícia Campos – Tudo aconteceu de forma muito natural. Eu costumo dizer que nunca tracei um plano rígido para ocupar determinados espaços, mas sempre tive clareza sobre como eu queria atuar: de forma ética, colaborativa e comprometida com algo que fosse maior do que interesses individuais. A relação Brasil-Portugal surgiu exatamente nesse contexto: como uma extensão natural desse olhar cooperativo. A internacionalização nunca foi, para mim, apenas uma operação jurídica ou econômica, mas um exercício de construção de pontes, de confiança e de visão de longo prazo. Ao longo dos anos, essas experiências foram se somando na advocacia, na atuação institucional, na consultoria empresarial, até que a presidência da Câmara Brasil Portugal Ceará se tornasse uma consequência natural desse caminho.
O Otimista – Você transita entre os universos jurídico, empresarial e acadêmico. Como essa combinação de experiências aprimora sua capacidade de tomar decisões assertivas sobre internacionalização, atração de investimentos e ambiente regulatório?
Patrícia – O universo jurídico me dá o rigor, a leitura de risco e a capacidade de estruturar decisões com segurança. O ambiente empresarial me traz a realidade do “chão da fábrica”: timing, viabilidade, custo de oportunidade, cultura de execução e impacto direto no caixa, nas pessoas e na reputação. E a academia, em um momento muito importante da minha formação, me deu método, profundidade e senso crítico, a disciplina de estudar, comparar experiências, compreender fundamentos e não decidir apenas pelo “achismo” ou pelo senso comum. Quando falamos de internacionalização e atração de investimentos, essa combinação é decisiva porque esses processos não são apenas técnicos: são estratégicos e humanos. A decisão de levar uma empresa para outro mercado ou de receber um investidor envolve estrutura societária, tributação, contratos, compliance, proteção de ativos, governança e previsibilidade regulatória. Mas envolve também narrativa, posicionamento, credibilidade, capacidade de entrega e alinhamento de expectativas e isso não se resolve apenas com uma boa cláusula contratual.
O Otimista – Na sua avaliação, quais são hoje os principais desafios legais enfrentados pelas empresas cearenses que buscam se internacionalizar para Portugal e para a Europa?
Patrícia – Na prática, eu não acredito que existam desafios legais que não possam ser ultrapassados com segurança quando há vontade real de fazer o melhor. As leis, as regras, especialmente no ambiente internacional, não devem ser vistas como uma barreira, mas como uma ferramenta de organização, proteção e previsibilidade. O que faz diferença, de fato, é a postura do empresário diante do novo mercado. Internacionalizar, assim como abrir uma filial em outro bairro, em outra cidade ou em outro país, exige disposição para se adaptar. Isso significa cercar-se de bons assessores, em todas as áreas, uma excelente logística. Compreender as regras do jogo local e ajustar processos, produtos e mentalidade ao que aquele mercado específico exige. A adaptação precisa ser constante, porque os mercados mudam, as regulações evoluem e o comportamento do consumidor se transforma o tempo todo. Um dos grandes pontos de miopia do empresariado, não apenas no Ceará, mas de forma geral, é acreditar que apenas grandes empresas podem se expandir internacionalmente. Essa lógica não se sustenta mais. Hoje, empresas de qualquer porte e de praticamente qualquer setor podem acessar mercados internacionais — inclusive o europeu — desde que tenham estratégia, planejamento e apoio qualificado.
O Otimista – Na sua visão, como a trajetória da taxa Selic em 2026 deve influenciar o ritmo de crescimento dos negócios no Brasil?
Patrícia – A Selic continua sendo um fator decisivo para o ritmo de crescimento dos negócios no Brasil, porque ela impacta diretamente o custo do dinheiro, o nível de risco que as empresas estão dispostas a assumir e a forma como o empresário planeja o médio e o longo prazo. Em 2026, mais do que o número exato da taxa, o que realmente fará diferença será o caminho que ela vai seguir: se haverá estabilidade, alguma queda gradual ou novas pressões de alta. Eu vejo 2026 menos como um ano em que a Selic trava completamente o crescimento e mais como um ano em que ela separa empresas maduras das menos preparadas.
O Otimista – Quais setores da economia tendem a atrair mais investimentos?
Patrícia – São aqueles que conseguem alinhar crescimento econômico, inovação e altos padrões de sustentabilidade e ESG. O mundo vive uma mudança estrutural de prioridades. Sustentabilidade deixou de ser um discurso aspiracional e passou a ser um critério central de decisão de investimento, tanto no setor privado quanto nas políticas públicas e nos grandes fundos internacionais.
O Otimista – O ambiente macroeconômico será favorável para a retomada da expansão empresarial?
Patrícia – Eu acredito que 2026 será um ano desafiador para as empresas, e isso precisa ser dito com transparência. Não porque o Brasil não tenha oportunidades, mas porque o ambiente ainda deve ser marcado por insegurança, principalmente em razão da implementação da reforma tributária. A reforma é necessária e importante, mas o período de transição traz dúvidas práticas: como tributar, como precificar, como reorganizar estruturas e como planejar investimentos. Em cenários assim, é natural que o empresário fique mais cauteloso. Muitas decisões de expansão acabam sendo revistas, e o foco passa a ser muito mais organização, eficiência e proteção do negócio.
O Otimista – Apesar dos desafios, há oportunidades à vista?
Patrícia – Sim, eu enxergo oportunidades em 2026. E, historicamente, é exatamente em cenários mais difíceis que surgem as melhores e maiores oportunidades para quem está atento e preparado. Momentos de instabilidade obrigam as empresas a repensarem seus modelos, seus custos, seus processos e até a forma como entregam valor ao mercado. Isso acaba revelando lacunas que antes estavam escondidas: necessidades não atendidas, serviços ineficientes, modelos que deixaram de fazer sentido ou demandas que surgem a partir das próprias mudanças econômicas e regulatórias. Crises funcionam como um filtro. Negócios pouco eficientes tendem a sair do mercado, enquanto empresas mais organizadas, flexíveis e estrategicamente posicionadas conseguem ocupar espaços que se abrem. É nesse contexto que surgem bons movimentos de expansão, aquisições, reposicionamento e inovação.
Fonte: O Otimista em 05.01.2026