Pensamento Amplo, Decisão Estratégica: O Conselho de Administração que Enxerga o Futuro. Por Cibele Gaspar
No cenário contemporâneo, marcado por rápidas transformações e complexidade crescente, a governança de empresas familiares enfrenta desafios significativos. A necessidade de equilibrar tradição e inovação, bem como de garantir a sustentabilidade do negócio através das gerações, torna-se cada vez mais premente. Nesse contexto, a composição dos conselhos de administração emerge como um fator crítico para o sucesso dessas organizações.
Tradicionalmente, empresas familiares tendem a privilegiar a especialização e a profundidade de conhecimento em áreas específicas. Contudo, conforme destacado por Mike Bechtel, futurista chefe da Deloitte, em sua palestra no SXSW 2025, “Amplitude é a nova profundidade”. Bechtel argumenta que o futuro pertence aos pensadores amplos e adaptáveis, capazes de conectar disciplinas distintas e aprender continuamente. (revistahsm.com.br)
Essa visão é reforçada por autores como David Epstein, em seu best-seller Range: Why Generalists Triumph in a Specialized World, ao defender que indivíduos com vivências e repertórios amplos têm mais facilidade para resolver problemas complexos, aprender com contextos variados e inovar em ambientes imprevisíveis. Epstein aponta que, em contraste com os especialistas altamente focados, os generalistas costumam se sair melhor em contextos que exigem adaptação, visão de longo prazo e tomada de decisão com múltiplas variáveis em jogo — características centrais à atuação em conselhos de administração.
Essa perspectiva sugere que conselhos de administração compostos por generalistas, ou seja, indivíduos com experiências diversificadas e capacidade de transitar por diferentes áreas do conhecimento, podem oferecer uma visão mais holística e adaptativa. Em vez de se concentrarem exclusivamente em competências técnicas específicas, esses conselhos seriam capazes de antecipar tendências, identificar oportunidades em setores variados e responder de forma ágil às mudanças do mercado.
Além disso, a inclusão de membros da família no conselho é essencial para alinhar os interesses dos proprietários com os da empresa de forma sustentável. Ivan Lansberg, em sua pesquisa “Por que sua empresa familiar precisa de membros da família no conselho”, observa que a ausência de representação familiar dificulta esse alinhamento, podendo comprometer a perenidade do negócio. (ibgc.org.br)
A obra The Infinite Game, de Simon Sinek, também traz uma contribuição relevante para o tema ao defender que as empresas que pensam no longo prazo, com visão sistêmica e propósito claro, são aquelas mais preparadas para permanecer. Nesse sentido, conselhos com composição plural e com membros capazes de interpretar diferentes horizontes estratégicos são fundamentais para garantir a continuidade do jogo — especialmente nas empresas familiares, em que o capital emocional e o legado pesam tanto quanto os números.
Portanto, a combinação de membros familiares com uma visão ampla e adaptativa e conselheiros externos generalistas pode ser uma estratégia eficaz. Essa configuração promove a integração de valores tradicionais com novas perspectivas, facilitando a inovação e a resiliência organizacional. A diversidade de pensamento e experiência no conselho de administração não apenas enriquece o processo decisório, mas também fortalece a capacidade da empresa de navegar em ambientes complexos e voláteis.
Em suma, para que empresas familiares prosperem no futuro, é imperativo que seus conselhos de administração adotem uma postura de amplitude, valorizando a interdisciplinaridade e a adaptabilidade. Essa abordagem não apenas assegura a relevância contínua da organização no mercado, mas também honra o legado familiar ao integrá-lo com as demandas contemporâneas de um mundo em constante evolução.
Mais do que uma mudança na forma de pensar conselhos, trata-se de uma nova forma de ver a própria empresa familiar: não como um organismo preso ao passado, mas como uma instituição viva, capaz de aprender com a experiência e se renovar com coragem. O futuro não favorecerá apenas os mais preparados tecnicamente, mas sim aqueles que forem capazes de construir pontes entre o conhecimento e o contexto, entre gerações e mentalidades, entre propósito e ação. Ver longe, afinal, é também saber com quem enxergar.
Por Cibele Gaspar
CEO e partner da Nexxi Assessoria / Diretora da Câmara Brasil Portugal no Ceará / Coordenadora Regional (Ceará) de Relações com Financiadores na INEL – Instituto Nacional de Energia Limpa
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