Do Lixo ao Luxo II – A Lição Sabemos de Cor, por Cibele Gaspar

Do Lixo ao Luxo II – A Lição Sabemos de Cor, por Cibele Gaspar

Estamos vivenciando uma corrida desenfreada por soluções de transição energética. (…) Como olhar para essa tempestade perfeita e emergir com soluções que nos remetam a uma nova ordem mundial, pautada na economia circular?

Elaborado para esta coluna, o texto a seguir é de Cibele Gaspar, administradora, especialista em finanças, PPPs e financiamentos Internacionais e mestre em Gestão Estratégica . Sócia da Nexxi Consultoria Empresarial e Financeira. O tema é atualíssimo. Leia-o:

A cientista Margareth Wheatley, em seu livro “Liderança e a Nova Ciência”, nos ensina que o caos é um estranho atrator de significados. Quando refletimos sobre os períodos em que estamos mergulhados no caos, podemos perceber que, quando ele termina, emergimos transformados, mais fortes em alguns aspectos, renovados. Abrigamos em nós a dança da criação e aprendemos que evolução sempre requer a passagem pelos tenebrosos reinos da desintegração.

Para enxergar a ordem além do caos é preciso mudar o foco da visão. Num mundo não linear, coisas que a princípio parecem pequenas podem amplificar-se em resultados inesperados e por muitas vezes, positivos, que conduzem a uma nova ordem.

Essa introdução tem a ver com o momento crítico que atravessamos. Como afastar-se da visão do caos e tentar enxergar a nova ordem que vai tomando forma é importante para avançarmos como seres humanos e como corporaçõe. Quando as coisas ficam caóticas, essa clareza nos faz enxergar o sentido das coisas, mesmo que o mundo tenha ficado louco.

Estamos vivenciando uma corrida desenfreada por soluções de transição energética que nos permitam evitar o caos climático e, agora, com o conflito no Leste Europeu, o risco de suspensão de fornecimento de gás natural e fertilizantes, impactando a segurança física e alimentar de muitas regiões do mundo. Como olhar para essa tempestade perfeita e emergir com soluções que nos remetam a uma nova ordem mundial, pautada na economia circular?

A solução muitas vezes está diante de nossos olhos. O dia 21.03.2022 foi recheado de notícias alvissareiras para a indústria do Biogás e, particularmente, para a inserção do Brasil entre os países de destaque na implementação de soluções para a transição energética de combustíveis fósseis para energias limpas.

O governo federal anunciou um pacote de medidas de incentivo à produção do biometano no Brasil, que consolidam e promovem ações importantes para o setor, dentre as quais se destacam a equiparação do biogás ao gás natural, não somente intra-dutos, como até então, como também no tocante aos incentivos fiscais já existentes – desoneração de 9% de PIS/COFINS, suspensão da cobrança de PIS/COFINS na aquisição de máquinas, materiais de construção e equipamentos para novas usinas, inclusão dos investimentos em biometano no Regime Especial de Incentivos para o Desenvolvimento da Infra Estrutura (REIDI).

Foi também instituído o Programa Metano Zero, que consiste na criação do mercado de créditos de metano, uma iniciativa inovadora, ainda a ser regulamentada, que pretende alinhar-se ao mercado de carbono existente. O programa representa enorme oportunidade econômica e estratégica, reduzindo emissões de gases de efeito estufa, custos de combustível e energia e transformando os produtores rurais e gestores de aterros sanitários em fornecedores de combustível e energias limpas e renováveis, além do importante subproduto, os biofertilizantes com alto valor para a agricultura. Falaremos mais dele nos próximos artigos.

O significado dessas ações, principalmente no cenário mundial atual, de extrema criticidade para o mercado de gás natural e derivados do petróleo, cujos preços saltaram de forma exponencial é de um caráter estruturante e estratégico e pode mudar o patamar da economia brasileira, tão infelizmente exposta aos decepcionantes voos de galinha em seu crescimento.

O Programa, na nossa visão uma política de Estado, e que como tal deve ser preservada, permitirá de forma rápida o desenvolvimento de novas plantas industriais que gerem biometano, que é obtido no refinamento e processamento do biogás e que, como biocombustível, pode ser utilizado em substituição aos combustíveis fósseis, uma vez que a tecnologia existente já é utilizada em várias partes do mundo e no Brasil, onde se registram 675 plantas de biogás, espalhadas por todo o País, com uma produção anual que chega a 2,22 bi (Nm3/ano).

Segundo Gabriel Kropsch, vice-presidente da Abiogas, o Brasil tem um potencial da ordem de 43 milhões de m3 por ano , o que seria suficiente para substituir quase 80% de todo o óleo diesel consumido no país ou um quarto da demanda nacional por energia, por uma fonte renovável e de custo competitivo.

Ainda segundo a Abiogas , o setor privado está preparado para investir cerca de R$ 60 bilhões em novos projetos até 2030, em plantas localizadas em aterros sanitários, usinas de cana de açúcar e fazendas de suínos, principalmente.

Dentre as medidas anunciadas ontem, serão implantadas 25 plantas demonstração da tecnologia nas regiões Sul, Sudeste e Centro Oeste do País. Contudo, não se sabe por que as regiões mais desiguais do Brasil – Norte e Nordeste – não foram contempladas. Imaginamos que isso não tenha nada a ver com o agronegócio, dada a fortaleza nordestina na produção de aves e ovos, na cultura de cana de açúcar, nas suas bacias leiteiras e na pujança verificada na produção de grãos no oeste baiano e no cerrado piauiense. Também não se aplica à questão dos aterros sanitários e lixões, espalhados por todos os rincões deste país.

O País do agronegócio é ao mesmo tempo o país dos lixões – segundo a Associação Brasileira de Empresas de Tratamento de Resíduos e Efluentes (Abetre), ainda existem no país 2.612 lixões a céu aberto em operação, que provocam desigualdade, miséria e doença. Em 2019, no Ceará existiam 301 lixões, somente 21 municípios tinham programas de coleta seletiva e apenas 10 municípios cearenses dispunham de aterros.

Ambas as atividades geram resíduos contaminantes, que impactam severamente o meio ambiente e as condições de vida das populações menos favorecidas. Contudo, devem ser olhadas pelo viés de solução e não de problema. Espera-se que a iniciativa quanto às plantas demonstração se espalhe por todo o Brasil. A utilização econômica e inteligente de resíduos proporciona melhor qualidade de vida para todos e por esta razão deve ser democratizada.

Os resíduos do agronegócio e o processamento e os resíduos sólidos urbanos, transformados em biofertilizantes e biometano, com o adequado processamento e tratamento, geram riqueza e empregos para o País. São, na realidade, matéria prima para o desenvolvimento.

Uma das maiores produtoras de ovos do Brasil investiu recentemente, segundo dados da Bloomberg, R$ 50 milhões para construir em Minas Gerais e no Tocantins duas fábricas de fertilizantes orgânicos enriquecidos com minerais fosfatados. Quatorze milhões de aves, produzindo 7,2 milhões de ovos todos os dias, fornecem a matéria prima para um dos ativos agrícolas mais valorizados nos últimos dias, em consequência da guerra no Leste Europeu – os fertilizantes.

Como já me referi em artigo anterior nesta coluna, “o reconhecimento do lixo e do esgoto não como um passivo ambiental, mas como um ativo energético, conjugado a ações de fortalecimento do marco regulatório do setor parecem sinalizar uma luz no fim do túnel. Sair do lixo para o luxo da geração de energia renovável e limpa, com redução de emissões de gases estufa, incorporação de novas tecnologias e geração de emprego e renda, pode ser a solução dessa equação complexa.”

O Nordeste e o Ceará inserem-se de forma soberana nesse processo, tanto por já utilizar com pioneirismo a tecnologia de valorização do gás em seus resíduos sólidos, quanto por possuir um agronegócio forte e um severo problema de lixões a resolver.

Com as regiões de saneamento definidas em marco legal estadual, com a possibilidade de transporte veicular do gás produzido em aterros e plantas mais distantes dos gasodutos atualmente instalados, com os gasodutos já existentes que ligam o Pecém ao mapa de gasodutos do Nordeste e Sudeste e todo o espírito empreendedor do Ceará, acredito que estamos prontos para embarcar nessa jornada rumo a um futuro mais promissor, de céu azul e ar respirável, energia limpa e segurança alimentar.

Essa é uma dívida que temos com nossas próximas gerações e da qual não podemos nos esquivar.

A lição sabemos de cor. Só nos resta aprender.

 

Por Cibele Gaspar
Administradora, Mestra em Gestão Estratégica, Especialista em Finanças, PPPs e Financiamentos Internacionais e Sócia da CBPCE.

Fonte: Cibele Gaspar