UE/Mercosul: Assinado acordo que cria a maior zona de livre-comércio do mundo
O acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul foi hoje assinado na capital do Paraguai, criando assim a maior zona de livre-comércio do mundo após 25 anos de negociação.
Perante a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e do presidente do Conselho Europeu, António Costa, o acordo foi assinado pelos responsáveis dos países do Mercosul (Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai) e pelo comissário europeu de Comércio, Maroš Šefčovič.
O acordo permitirá eliminar tarifas para 91% das exportações da UE para o Mercosul e para 92% das vendas sul-americanas para a Europa, abrindo um mercado conjunto de mais de 700 milhões de consumidores e que, juntos, representam um Produto Interno Bruto (PIB) de aproximadamente 22 biliões de dólares (19 biliões de euros), segundo dados da Comissão Europeia.
A presidente da Comissão Europeia afirmou hoje que o acordo é uma declaração ao mundo da escolha do “comércio justo em vez de tarifas”. Ursula von der Leyen enfatizou: “Isto é muito mais do que um acordo comercial”.
A responsável europeia enalteceu ainda o facto de os líderes presentes estarem, neste momento, a fazer “história”, após mais de 25 anos de negociações que, finalmente, cria “a maior zona de comércio livre do mundo, um mercado partilhado de 700 milhões de pessoas”.
“Estamos a criar a maior zona de livre comércio do mundo, um mercado que representa quase 20% do PIB global”, sublinhou.
“Reflete uma escolha clara e deliberada: escolhemos o comércio justo em vez das tarifas; escolhemos uma parceria de longo prazo em vez do isolamento e, acima de tudo, queremos oferecer benefícios reais e tangíveis às nossas sociedades e empresas”, disse Von der Leyen.
“Este acordo eliminará tarifas e outras barreiras ao comércio, abrirá a contratação pública e proporcionará um quadro claro, baseado em normas, para incentivar o investimento e o intercâmbio comercial”, declarou perante centenas de convidados num auditório.
Por outro lado, sublinhou a importância geopolítica do acordo, numa altura em que os Estados Unidos iniciaram uma guerra tarifária contra o mundo e tornaram públicas as suas ambições expansionistas com a Gronelândia.
“Estamos a criar uma plataforma para trabalhar juntos numa ampla gama de questões globais, incluindo uma reforma das instituições internacionais (…). Uniremos forças como nunca antes”, afirmou Von der Leyen.
O Presidente paraguaio, Santiago Peña, é o anfitrião do encontro, que também conta com a presença da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e do presidente do Conselho Europeu, António Costa, além de outros quatro líderes latino-americanos: Javier Milei (Argentina), Yamandú Orsi (Uruguai), Rodrigo Paz (Bolívia) e José Raúl Mulino (Panamá).
O Presidente brasileiro, Lula da Silva, é o principal ausente.
Representando o Brasil, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, repetiu a declaração de Lula, para quem o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia é uma prova da força do mundo democrático e uma demonstração com o multilateralismo. “O acordo estabelece, de fato, uma parceria entre nossas regiões, com enorme potencial econômico para nossas sociedades e profundo sentido geopolítico para nossos países […] Ele propiciará ganhos tangíveis, mais empregos e investimentos, maior integração produtiva, acesso ampliado a bens e serviços de qualidade, inovação tecnológica e crescimento econômico com inclusão social […] diante de um mundo batido pela imprevisibilidade, protecionismo e pela coerção.”
O aguardado acordo demorou mais de 25 anos de negociações e cria a maior zona de livre-comércio do mundo, num momento de crescente protecionismo global.
António Costa, defendeu hoje que “enquanto uns levantam barreiras” a União Europeia e o Mercosul fazem “pontes” através do acordo comercial. “Enquanto uns levantam barreiras e outros violam as regras de concorrência leal, nós fazemos pontes e concordamos com as regras”, sublinhou o ex-primeiro-ministro português, em Assunção, capital do Paraguai, perante os representantes do bloco do Mercosul.
António Costa afirmou que a União Europeia acredita “no comércio justo como força geradora de prosperidade, emprego e estabilidade”.
Segundo António Costa, o acordo “vai ajudar ambos os blocos a navegar um entorno geopolítico cada vez mais turbulento”. Isto sem “renunciar” os valores dos dois blocos, sublinhou.
António Costa agradeceu ainda enorme trabalho dos negociadores ao longo destes mais de 25 anos.
Por outro lado, o Presidente do Paraguai, Santiago Peña, afirmou que a assinatura do acordo demonstra que o diálogo, a fraternidade e a integração são “o caminho” e que este é um passo que deixa para trás “as trevas do unilateralismo”.
“Sejam bem-vindos, então, a este berço da integração para testemunhar um acontecimento, sem dúvida, histórico: a assinatura de um acordo que mostra que o caminho do diálogo, da cooperação e da fraternidade é o único caminho”, disse Peña no seu discurso como anfitrião da cerimónia de assinatura, exercendo o seu país a presidência semestral do Mercosul, integrado pelo Paraguai, Argentina, Brasil e Uruguai.
Destacou ainda que, num cenário global marcado por “tensões”, a assinatura do acordo “envia um sinal claro a favor do comércio internacional como fator de cooperação e de crescimento”.
A cerimónia de assinatura do histórico acordo de livre-comércio entre a União Europeia (UE) e o Mercosul começou hoje no Grande Teatro José Asunción Flores, em Assunção, no mesmo local onde, em 1991, foi criado o Mercosul.
No Rio
Dia 16 no Brasil, presidente da Comissão Europeia enalteceu a assinatura do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul afirmando que este deixa uma “mensagem poderosa” já que cria o “maior mercado do mundo”.
“O Acordo UE-Mercosul envia uma mensagem poderosa. Diz: bem-vindos ao maior mercado do mundo e à maior zona de comércio livre do planeta”, enfatizou Ursula von der Leyen, no Rio de Janeiro, ao lado do chefe de Estado do Brasil, Lula da Silva, um dos principais impulsionadores para que o acordo fosse finalmente concretizado mais de 25 anos depois.
Num encontro no Palácio do Itamaraty, no Rio de Janeiro, que não contou com a presença do presidente do Conselho Europeu, António Costa, devido ao cancelamento de um voo, a líder europeia sublinhou que o acordo assinado sábado representa “a força da amizade e da compreensão entre povos e regiões separados por oceanos” e que é desta forma que se cria “prosperidade real, uma prosperidade partilhada”.
Ursula von der Leyen agradeceu aos negociadores e líderes que durante 25 anos trabalharam para que o acordo chegasse a bom porto, mas assumiu que o líder político deste acordo tem um nome: Luiz Inácio Lula da Silva.
“A liderança política, o empenho pessoal e a paixão que demonstrou nas últimas semanas e meses, caro Lula, são verdadeiramente incomparáveis. Por isso, muito obrigada pela forma habilidosa como conduziu as negociações. E por ter concretizado este acordo histórico”, enalteceu a responsável europeia.
Quanto ao acordo, Ursula von der Leyen defendeu que este “multiplicará oportunidades como nunca antes”, através do “acesso mútuo a mercados estratégicos” com “regras claras e previsíveis”.
Para a União Europeia, o tratado abre as portas de um mercado historicamente protegido aos seus setores industriais mais competitivos, como a indústria automóvel e a maquinaria industrial, onde as atuais tarifas entre 35% e 14% desaparecerão progressivamente.
Outros setores que beneficiarão de forma especial serão o químico e o farmacêutico, bem como produtos agroalimentares protegidos por denominações de origem, como os vinhos e os queijos.
Após a assinatura, o texto será submetido à ratificação do Parlamento Europeu e dos congressos nacionais de cada país integrante do Mercosul. A entrada em vigor da parte comercial do acordo depende da aprovação legislativa, com previsão de implementação gradual ao longo dos próximos anos.
Fonte: Mundo Lusíada em 17.01.2026
