CBPCE promove debate sobre potencial da Economia Azul para o desenvolvimento do Ceará
Primeira edição dos Diálogos Estratégicos reuniu especialistas, empresários, pesquisadores e instituições para discutir oportunidades, desafios e propostas para o mar cearense
A Câmara Brasil Portugal no Ceará (CBPCE) realizou, na tarde desta terça-feira, 1º de setembro, no Lounge APSV, a primeira edição dos Diálogos Estratégicos CBPCE, iniciativa criada para reunir diferentes setores da sociedade em torno de temas estratégicos para o desenvolvimento do Ceará. Com o tema “Economia Azul: Conexões e Oportunidades para o Mar do Ceará”, o encontro foi conduzido pela presidente da CBPCE, Patrícia Campos, pelo diretor da CBPCE e presidente da Câmara Setorial da Economia do Mar, Rômulo Alexandre, e pela diretora Clivânia Teixeira.
A pergunta que orientou as discussões foi: “Que oportunidades, desafios e propostas devem integrar uma agenda estratégica para o desenvolvimento sustentável do mar do Ceará?”. A proposta foi transformar o mar em uma agenda estratégica de desenvolvimento, considerando atividades tradicionais, como pesca, turismo e operações portuárias, além de segmentos em expansão, como energias renováveis offshore, inovação, tecnologia, bioeconomia, infraestrutura, formação profissional e conservação ambiental.
Para Patrícia Campos, os Diálogos Estratégicos foram concebidos como um ambiente de escuta e construção coletiva. “Mais do que uma programação baseada em palestras, os Diálogos Estratégicos foram estruturados como um espaço de escuta, troca e construção coletiva. Os participantes foram convidados a apresentar experiências, desafios, oportunidades, reflexões ou propostas que possam contribuir para uma agenda de desenvolvimento sustentável do mar cearense”, destacou.
Rômulo Alexandre Soares ressaltou que a Economia Azul envolve uma agenda ampla, que passa por governança do mar, financiamento, investimentos, conservação ambiental, mudanças climáticas, portos, logística, recursos marinhos, pesca, aquicultura, turismo, esportes náuticos, inovação, tecnologia, formação profissional e inserção internacional. “Os Diálogos Estratégicos CBPCE surgem como uma tentativa de aproximar diferentes visões e transformar conhecimentos e experiências dispersos em uma agenda comum para o futuro do mar cearense”, afirmou.
A força do Ceará na pesca e na aquicultura foi um dos pontos destacados durante o encontro. O engenheiro de pesca Felipe Goyanna, mestre e doutor em Ciências Marinhas, lembrou que o Estado ocupa posição estratégica no setor pesqueiro nacional. “O Ceará ocupa uma posição de destaque no setor pesqueiro nacional. Somos o maior produtor de lagosta, um dos principais produtores de atum e o maior exportador de pescados do Brasil, respondendo por cerca de 25% a 30% do valor das exportações brasileiras do setor.”
Felipe também chamou atenção para a carcinicultura. “Também temos uma posição muito forte na carcinicultura. Mais da metade da produção brasileira de camarão cultivado está concentrada no Ceará. Do ponto de vista da pesca e da aquicultura, o Estado está muito bem posicionado no cenário nacional.”
A preservação ambiental e o combate à poluição marinha também entraram na pauta. Rômulo Alexandre Soares destacou que grande parte dos resíduos encontrados nas praias tem origem nas cidades e nos rios. “Hoje, cerca de 80% do plástico que encontramos nas praias vem dos rios e das cidades. Fortaleza despeja aproximadamente 1.400 toneladas de plástico por ano no mar do Ceará, e esse é um problema ambiental que precisa ser enfrentado na origem.”
Ele também apresentou uma iniciativa de mobilização internacional ligada aos esportes náuticos. “Nosso desafio é mobilizar kitesurfistas do mundo inteiro em prol do oceano. Para cada quilômetro velejado, buscamos retirar um quilo de resíduo de ambientes costeiros. Já retiramos cerca de 470 toneladas de resíduos dos rios e acumulamos mais de 300 mil quilômetros velejados. Nossa meta, até 2030, é alcançar um milhão de quilômetros e, consequentemente, retirar um milhão de quilos de resíduos do meio ambiente.”
A logística foi abordada como um eixo estruturante da Economia Azul. Edna Câmara, da Prática Eventos, realizadora da Expolog, destacou o papel estratégico do setor. “A logística é uma mola propulsora para diferentes setores da economia e ocupa um papel central na Expolog. A partir dela, o evento conecta temas como portos, agronegócio, inovação, economia e macroeconomia, ampliando o debate e as oportunidades de negócios.”
Segundo ela, o desafio é manter a logística no centro das discussões sobre desenvolvimento. “O grande desafio é manter essa discussão cada vez mais atual e atrativa, mostrando que a logística não é um tema isolado, mas um elemento estratégico para o desenvolvimento econômico e para a integração entre diferentes cadeias produtivas.”
O empresário Ricardo Parente defendeu uma mudança de paradigma sobre o papel do mar na economia. “Mais do que olhar para a economia azul, precisamos de um novo olhar sobre ela. O mundo passa por profundas mudanças geopolíticas e tecnológicas, e energia, infraestrutura e agronegócio são pilares fundamentais para a sociedade. O mar está diretamente inserido nesse contexto.”
Para ele, o mar deve deixar de ser visto apenas como limite geográfico ou espaço de extração primária. “Essa mudança representa um novo paradigma: o mar deixa de ser visto apenas como limite geográfico ou área de extração primária e passa a ocupar o centro de uma economia baseada em tecnologia, sustentabilidade ambiental e integração global, abrindo também oportunidades para o Ceará ampliar sua liderança nesse setor.”
A relação entre o Ceará e a Margem Equatorial foi destacada por Jamiro Dias, da NML Tankers. “O Ceará tem uma posição privilegiada para ser protagonista na Margem Equatorial. Com quase 600 quilômetros de costa, os portos do Mucuripe e do Pecém e infraestrutura ligada ao setor naval, o Estado reúne condições estratégicas para aproveitar as oportunidades que podem surgir com a exploração offshore.”
Jamiro também alertou para a necessidade de preparação. “O desafio é estar preparado para esse movimento, que pode gerar empregos e demandar mão de obra qualificada. O Ceará precisa se antecipar, investir em capacitação e estrutura e buscar um papel de protagonismo, e não apenas de coadjuvante, nesse processo.”
Os esportes náuticos foram apresentados como plataforma de desenvolvimento econômico. Renner Fortunato, da Associação de Stand Up Paddle do Ceará, afirmou que o setor pode movimentar diversas cadeias. “O esporte náutico pode ser muito mais do que uma atividade esportiva. Ele pode funcionar como uma plataforma de desenvolvimento da economia azul, movimentando turismo, hospedagem, gastronomia, transporte, equipamentos, serviços, formação profissional e geração de emprego e renda.”
Ele também defendeu a integração entre eventos náuticos, sustentabilidade e pesquisa. “O Ceará reúne condições privilegiadas para ampliar esse potencial. A proposta é integrar eventos náuticos à sustentabilidade, à pesquisa e ao monitoramento ambiental, transformando essas iniciativas em verdadeiros laboratórios da economia azul e fortalecendo também as conexões com Portugal.”
A criação de um cluster marítimo foi apontada como caminho para articular empresas, governo, academia e demais atores ligados ao mar. A almirante de esquadra Elis Treidler Öberg avaliou que o Ceará vive um momento decisivo. “O Ceará vive um ponto de inflexão, com novas oportunidades ligadas à energia, à Margem Equatorial e às eólicas offshore. Para que essas oportunidades não se percam, é fundamental manter um diálogo permanente entre empresas, governos, academia e todos os atores envolvidos com o mar.”
Segundo ele, a Economia Azul precisa incorporar sustentabilidade desde a origem. “A proposta é criar um cluster marítimo que reúna esses setores e fortaleça essa articulação. Mais do que desenvolver a economia do mar, é preciso garantir que essas atividades incorporem a sustentabilidade, transformando esse crescimento em uma verdadeira economia azul.”
A dimensão cultural da Economia Azul também foi lembrada. Célio Fernando, da BFA, destacou a importância do pertencimento ao mar. “Quando a gente fala de arte e cultura, a gente fala também de inovação, de criatividade e de currículo azul. É ciência, tecnologia, engenharia, artes e matemática, mas também é entender a nossa relação com o mar por meio da cultura.”
“A gente tem que ter coração e querer primeiro pertencer ao mar. Não adianta qualquer coisa que a gente queira fazer, seja em energia ou em tudo isso que a gente vem falando, se não houver esse pertencimento, essa arte e essa cultura”, acrescentou.
Para Anya Ribeiro, sócia e vice-presidente de Turismo e Serviços da CBPCE, o mar também deve ser compreendido como elo entre o litoral e o interior. “Quando eu olho o mar, não consigo vê-lo dissociado da linha de costa. Eu vejo esse mar associado ao interior e ao benefício que ele leva para esses territórios, pelos rios, pelas comunidades e por todas essas conexões.”
Ela defendeu que empresários podem atuar como agentes de transformação. “A minha mensagem é que, através do mar, que conecta a costa litorânea e o interior, nós, empresários, podemos promover uma mudança de chave no desenvolvimento sustentável do Ceará.”
O ex-presidente da Câmara Setorial da Economia Azul e atual vice-presidente da entidade, Beto Gradvohl, classificou a Economia Azul como uma agenda transformadora. “A economia azul é uma economia transformadora. Quando estiver plenamente implantada, acredito que teremos uma mudança enorme na vida de todos nós. Ela pode, inclusive, superar o agronegócio e passar a ocupar uma posição de prioridade.”
Ele ressaltou, no entanto, que a consolidação da agenda depende de ações estruturantes. “Para desenvolver uma economia azul saudável no Ceará, precisamos da participação do poder público, com saneamento básico, especialmente nos municípios costeiros, boas estradas, segurança e projetos estruturantes. O grande desafio é transformar os projetos e ideias que já existem em ações concretas.”
O professor Eduardo Fontenele, da Universidade Federal do Ceará, coordenador do Núcleo de Pesquisa em Economia do Mar, destacou a importância de avaliar os impactos econômicos de forma mais ampla. “Quando se fala em pesca artesanal, a preocupação não pode ser apenas com a produção. É preciso olhar também para o pós-captura, para o acondicionamento, o transporte e a perda de valor por parte dos pescadores. Essa baixa rentabilidade ajuda a explicar o envelhecimento da atividade e o desinteresse dos jovens.”
Para ele, também é necessário compreender como a riqueza gerada permanece no território. “Quando se fala em economia azul, não basta saber quanto o PIB cresce. É importante entender quanto desse valor fica no território, como essa renda é distribuída, quem ganha, quem perde e quais encadeamentos produtivos são gerados na nossa economia.”
A economista em formação Marina Rocha, entusiasta da Economia Azul, reforçou a importância de conectar os diferentes atores do ecossistema. “O Ceará tem um grande potencial na economia azul, mas o desafio é transformar esse potencial em oportunidade e desenvolvimento. E a resposta para isso passa pela conexão entre o setor público, o setor privado, a sociedade civil e a academia.”
Ela também apresentou a proposta da Blue Ceará como plataforma de articulação. “A Blue Ceará nasce com esse propósito: ser uma plataforma de conexão do ecossistema da economia azul no Estado, permitindo o compartilhamento de ideias, conhecimentos, eventos e perspectivas entre os diferentes atores.”
A advogada Fabíola Rocha, sócia da CBPCE, chamou atenção para a necessidade de governança, segurança jurídica e repartição de benefícios. “O Ceará tem condições muito favoráveis para avançar na economia azul, mas é preciso definir qual arranjo de governança, financiamento e repartição de benefícios deve ser adotado para que esse desenvolvimento gere reindustrialização local e inclusão socioeconômica, e não apenas exportação.”
Segundo ela, o avanço da Economia Azul também deve observar critérios ambientais e sociais. “Também precisamos conciliar a expansão da economia azul com segurança jurídica e ambiental, proteção das comunidades pesqueiras e dos povos do mar e indicadores ESG críveis, evitando o bluewashing e garantindo competitividade e acesso a mercados como o da União Europeia.”
A formação das novas gerações foi destacada por Thais Pileggi, coordenadora nacional do programa Escola Azul. “Se a gente quer um futuro com economia azul, a gente tem que falar de educação. O Programa Escola Azul trabalha justamente a cultura oceânica, mostrando de que maneira as nossas ações afetam o oceano e de que maneira o oceano nos afeta.”
Ela também ressaltou o potencial de expansão do programa no Ceará. “Hoje temos mais de 760 escolas participantes no Brasil, mas apenas 16 no Ceará. O Estado já é referência em educação e pode se tornar também referência em Escolas Azuis, ampliando essa rede e aproximando cada vez mais os estudantes da cultura oceânica.”
O ex-petroleiro André Aski defendeu que a Economia Azul extrapola os limites do oceano e deve estar conectada às comunidades. “Eu entendo que a economia azul extrapola os limites do oceano e precisa estar conectada também às comunidades. Foi justamente essa relação entre economia azul e interação com as comunidades que despertou ainda mais o meu interesse pelo tema.”
Ele também destacou a importância de rodadas de negócios e articulação entre empresas e tecnologias. “A questão do cluster é muito importante. A experiência com o cluster tecnológico naval e com rodadas de negócios mostra como essa articulação pode aproximar empresas, tecnologias e iniciativas que têm relação direta com a economia azul.”
Para Luiz Eugênio, o debate precisa gerar resultados práticos. “Tudo o que foi falado aqui mostra quanta coisa o mar proporciona para o Ceará. Energia renovável, hidrogênio verde, turismo, pescado, são muitas oportunidades e uma riqueza enorme de ideias e possibilidades.”
“Mas, se a gente não tratar isso de forma concreta, com projetos e com um plano bem feito, vai ficar uma coisa romântica. Uma discussão como essa precisa gerar entregáveis e resultados para que a sociedade entenda a importância da economia azul”, afirmou.
A sócia da CBPCE Cibele Gaspar, da Nexxi Assessoria, relacionou o debate sobre o mar à experiência brasileira com o pré-sal e à necessidade de planejamento para a Margem Equatorial. “O Brasil já passou pela experiência de construir riqueza a partir da exploração do pré-sal, mas o fundo social criado com esses recursos não tem contribuído como deveria para a riqueza do país. Com a Margem Equatorial, precisamos pensar desde já em como essa exploração pode trazer benefícios concretos para as regiões envolvidas.”
Segundo ela, é fundamental assegurar que os recursos gerados permaneçam no território. “É preciso definir a utilização desses recursos da melhor forma no território e estabelecer quais organismos podem fazer isso, evitando desvios e o escoamento de recursos. Precisamos mobilizar nossa inteligência, nosso apoio e nossa força para fazer com que essa riqueza fique na região.”
Para Clivânia Teixeira, o encontro gerou conexões que ultrapassam a programação do evento, aproximando empresas, pesquisadores, investidores, instituições públicas e comunidades em torno da construção de projetos e parcerias. “As contribuições apresentadas durante o encontro foram registradas e serão posteriormente organizadas pela CBPCE. O objetivo é que não se limite à identificação de problemas ou à apresentação de oportunidades, mas contribua para apontar prioridades e caminhos de cooperação”, concluiu.
O evento contou com o patrocínio da BLD Urbanismo, Ricarte Urbano Contabilidade, Hotel Sonata de Iracema, Caix Pescados, Destinos Objetivos, Nova Era Aduaneira, Qair Brasil, Cenergias Participações, Termaco Logística, Prática Eventos e Tecer Terminais Portuários, além do apoio da APSV Advogados, Câmara Setorial da Economia Azul, Câmara Brasil Argentina no Ceará, Câmara Brasil-Canadá, Amcham e Câmara Ceará-Israel.
Confira as fotos: https://news.cbpce.org.br/fotos-dialogos1
Conheça o projeto Diálogos Estratégicos: https://news.cbpce.org.br/lp.dialogos-estrategicos
Fonte: Cenários Comunicação, 2 de setembro de 2026.
“Esta newsletter realiza curadoria de conteúdos publicados por terceiros. Os resumos apresentados são elaborados pela equipe e direcionam o leitor às fontes originais, responsáveis pelo conteúdo integral e pelas imagens eventualmente associadas às matérias.”
