O Banquete Inacabado, por Francisco Pinheiro Neto
A mesa foi posta antes mesmo de haver mesa. Havia o chão de terra vermelha, havia o rio largo, havia o silêncio imenso que só os pássaros e os insetos sabiam preencher com competência.
E havia, claro, a mandioca — raiz sábia, subterrânea, que os povos de antes já conheciam como se conhece uma avó: com respeito, com fome e com o segredo do fogo.
Foi sobre esse chão — essa pangeia à deriva no Atlântico Sul — que alguém chegou com fome de outra natureza.
Os portugueses desembarcaram com a boca seca de sal e a alma cheia de Deus. Trouxeram o verbo, a cruz, a sífilis e a saudade — esse condimento que nenhum outro povo soube fabricar com tal refinamento.
Plantaram sua língua como se planta cana: fundo, em fileiras, com a intenção de que cobrisse tudo. E cobriu.
Mas a terra era estranha, e a língua foi crescendo torta, misturada, bela — modulada pelos lábios que já estavam aqui, pelos que vieram acorrentados e pelos que ainda estavam por chegar.
Porque a receita, percebe-se logo, nunca foi simples.
Do continente africano arrastaram não apenas os braços — vieram os ritmos, os orixás escondidos dentro dos santos, o dendê, o quilombo como ideia e como grito, a memória que sobrevive mesmo quando se proíbe a memória.
Cozidos à ferro e fogo — a expressão não é metáfora, é ata — esses homens e essas mulheres temperaram o caldo com uma dignidade que a história oficial demorou séculos para aprender a soletrar. E ainda aprende.
O banquete foi ganhando camadas.
Veio a França com suas iluminices e suas revoluções empacotadas em papel-manteiga.
Veio gratinar por cima de tudo aquilo com ideias de liberdade que, por ironia do cardápio, raramente incluíam os que estavam servindo à mesa.
Mas ficou o verniz, ficou a Constituição, o Código Civil, ficou certa mania de discutir filosofia em botequim enquanto o país pega fogo — hábito indiscutivelmente gaulês, adaptado com maestria local.
E depois, quase ao final — quando já parecia que a receita estava pronta — chegaram os alemães do sul com seus sotaques de vogais fechadas, seus budinhos, suas festas de outubro e seu luteranismo discreto.
Chegaram os holandeses com a memória do Recife que um dia foi deles, com o traço nos olhos de gente do interior de Pernambuco que nunca soube explicar. Chegaram italianos, japoneses, sírios, libaneses, judeus errantes de toda diáspora — cada um trazendo no bolso uma especiaria que a terra absorveu sem cerimônia, como faz com tudo: com voracidade e com graça.
O resultado é este aqui.
Este mosaico sem moldura definida, este caldo que ferve em panelas diferentes ao mesmo tempo, esta língua que tem trezentas palavras para chuva e nenhum consenso sobre quase nada.
Este país que é, ao mesmo tempo, a maior nação negra fora da África e um lugar onde o racismo nega existir. Que dança no carnaval e chora no forró. Que tem o maior rebanho de bovinos e a maior fila de famintos. Que é gênio e é impunidade, é generosidade e é violência, é barroco e é brega — às vezes na mesma pessoa, no mesmo dia, no mesmo sorriso.
E quem come desse prato?
Pândegos no sentido mais nobre e mais trágico da palavra: aqueles que conjugam predicados excêntricos com a naturalidade de quem não sabe que é extraordinário. O político que improvisa um discurso épico em cima de um caminhão pipa. A rezadeira que mistura reza católica com ervas de umbanda sem ver contradição alguma. O engenheiro que constrói pontes miraculosas sobre rios amazônicos e nem assina a obra. A avó que faz o vatapá pela memória das mãos, sem receita escrita, sem erro.
São todos herdeiros desse banquete involuntário.
Ninguém sentou à mesa por escolha. Ninguém assinou o cardápio. A pangeia foi se quebrando, os continentes foram à deriva, e quando as pessoas olharam ao redor, estavam aqui — miscigenadas, contraditas, ruidosas, imperfeitas e, de um jeito que ainda não conseguimos descrever direito, absolutamente singulares.
A mesa ainda está posta.
O caldo ainda ferve.
E há sempre lugar para mais um.
por Francisco Pinheiro Neto em 14.05.2026
