Quando a música ensaiou a liberdade, por Joel Rodrigues
Na madrugada de 25 de abril de 1974, uma canção percorreu o país, “Grândola, Vila Morena” tocou na Emissora Nacional, naquele instante suspenso entre a escuridão e a esperança. A música de Zeca Afonso, escolhida pelo Movimento das Forças Armadas, sussurrada nas tertúlias, cantada nos corredores das universidades, tornou-se o código que desencadeou um dos momentos mais luminosos da história contemporânea.
Cresci ouvindo histórias de homens e mulheres que, durante décadas, testaram os limites do silêncio obrigatório através da cultura. A geração de Adriano Correia de Oliveira, de José Mário Branco, de tanta gente que usava a arte como forma de dizer o indizível, ensinava a seu povo que a liberdade era não apenas um direito político, mas um direito de expressão, de pensamento, de imaginação.
Na Universidade de Coimbra, que respirei como estudante a irreverência académica e na Tuna FAN-Farra Académica, compreendi a profundidade desta lição. Aqueles claustros não eram apenas espaços de aprendizagem académica; eram centros de incubação intelectual onde o inconformismo florescia. Os estudantes de Coimbra cantavam porque sabiam que cantar era pensar em voz alta num país onde pensar em voz alta era perigoso.
Nenhuma revolução é improvisada. Elas são construídas culturalmente, tijolo por tijolo, verso por verso, ao longo de anos. A música educa emocionalmente um povo; prepara-o, sem que ele o saiba completamente, para o momento em que será necessário ser corajoso.
Sou filho desta revolução. Vi Portugal emergir do silêncio para a democracia, testemunhei o país crescer através da adesão à então Comunidade Económica Europeia em 1986 sob a liderança de Mário Soares — um momento em que a ciência, a tecnologia e o conhecimento começaram a fluir de forma mais estruturada e com mais investimentos.
Observei a construção de infraestruturas, a consolidação económica, o fortalecimento do sistema de ensino e investigação, e a construção do Serviço Nacional de Saúde como promessas cumpridas de um país que havia escolhido a liberdade. Novas universidades, centros de investigação e uma nova geração de cientistas e engenheiros passaram a contribuir para este mundo cada vez mais digital e tecnológico.
Cinquenta anos depois, Portugal desenvolveu-se de forma notável como um país moderno e seguro para investir. Temos instituições democráticas robustas, uma economia mais diversificada e aberta, um sistema de saúde, educação e ciência que, apesar dos desafios, enraizou-se na vida de milhões. Possuímos uma vasta zona marítima inexplorada, potencial de comércio internacional e uma geração de cientistas, inovadores e líderes que herdaram aquilo que a revolução plantou: a liberdade de questionar, de criar, de imaginar futuros diferentes.
Joel Rodrigues
Sócio da CBPCE, Cientista e Consultor em Tecnologias Emergentes, Líder do Centro de Inteligência da Fecomércio-CE
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